02 de setembro de 1806, Aurea
O céu ainda começava a clarear quando acordei. Em qualquer outro dia eu simplesmente rolaria na cama e aproveitaria os próximos minutos ou, com sorte, as próximas horas de sono. Mas a lista de afazeres parecia estar gravada a ferro quente em minhas pálpebras, impossível de ser ignorada.
Com um bocejo, sentei-me na cama que parecia grande demais sem Magnus ali. Por mais que eu quisesse ter ido com ele até o Porto de Jade, fazer uma viagem tão longa com uma criança de quatro anos e um bebê de dez meses seria… difícil, para dizer o mínimo. E eu não poderia ficar muito tempo longe de Aurea de qualquer forma, não com o tradicional baile da Duquesa de Jade se aproximando.
Ou melhor, batendo na porta, já que hoje era o “grande” dia.
Uma olhada rápida para o relógio acima da lareira revelou que ainda era cinco e quinze da manhã.
Cedo demais.
Lutando contra o magnetismo que a cama exercia sobre mim e contra os cobertores que pareciam determinados a me manter onde eu estava, levantei-me. Um passeio a cavalo no parque deveria ser o bastante para que eu acordasse de vez e reunisse a energia necessária para lidar com a preparação final do baile.
O leve aroma de jasmim me envolveu quando entrei no quarto de vestir que, graças a uma reforma exagerada da avó de Magnus, poderia muito bem ser o quarto principal. Todos os meus pertences preenchiam um terço do espaço que as vestimentas da antiga duquesa ocuparam um dia, mas, graças ao bom senso de Adriana, as cortinas douradas e o papel de parede vermelho tinham desaparecido anos antes, assim como o retrato gigantesco da mulher.
Escolhi um traje de montaria ao acaso e trancei meu cabelo. A única vantagem de sair àquele horário era a certeza de que nenhuma inspetora das boas aparências estaria no parque para criticar a falta de cachos perfeitos emoldurando o meu rosto.
Antes de sair, fui até o quarto das crianças, abrindo a porta apenas o suficiente para espiar o interior. Olga roncava de leve em sua cama, parecendo dormir profundamente, mas eu sabia que bastava qualquer ruído de Valerius ou Aline para que ela despertasse e começasse a agir como a babá preocupada de um livro de histórias.
Valerius estava deitado de bruços sob a bagunça que seus cobertores sempre se tornavam ao longo da noite, como se eles travassem uma batalha árdua por horas. Considerando que um dos cobertores estava no chão e o outro na metade do caminho, eu diria que meu filho estava ganhando.
Em seu berço, Aline dormia encolhida como uma bola, o cabelo tão ruivo quanto o meu se destacava contra a fronha branca e as sobrancelhas franzidas de leve, faziam parecer que ela resolvia algum problema em seus sonhos. E, claro, ela estava abraçada à sua boneca de pano favorita, um presente de ninguém menos que Ian.
Sim, havia uma ironia ali em algum lugar.
Dei um passo para entrar no quarto, mas me detive. Mesmo se eu apenas ajeitasse a confusão que era a cama de Valerius, Aline acordaria — ela parecia ter um sexto sentido para quando eu ou Magnus estávamos por perto — e grudaria em mim como um carrapato. O carrapato mais adorável de Adamantys, sem sombra de dúvidas, mas mesmo assim era melhor que eu resolvesse o maior número possível de coisas antes que ela e Valerius levantassem.
Com uma última olhada nos dois, fechei a porta e me apressei até a escadaria, parando brevemente no escritório de Magnus para pegar alguns biscoitos que a cozinheira deixava em um pote para emergências como, por exemplo, a Duquesa saindo para cavalgar antes que o preparo do café da manhã sequer tivesse começado.
A névoa que recaia sobre a cidade quase todas as noites tinha desaparecido, deixando apenas as pedras úmidas das ruas como uma prova que estivera ali. Zéfiro parecia tão empolgado quanto eu pela perspectiva de um passeio, tanto que mal precisou de um incentivo para começar a galopar pela pista vazia do parque tão logo chegamos.
Por mais que eu amasse a vida que levava agora, eu sentia falta de cavalgar pelos campos sem me preocupar com nada, de passar horas fora de casa conversando com Clarissa sobre assuntos que não tinham nada a ver com cuidados com a casa ou com os filhos.
E, definitivamente, que não eram sobre cada um dos mil detalhes que envolviam a preparação de um baile.
O pensamento mal tinha se esvaído quando avistei um dos cavalariços, no limite da pista, agitando os braços para chamar minha atenção. Seus gestos frenéticos fizeram meu coração falhar uma batida enquanto ia até ele. A reverência meio desengonçada e o peito que subia e descia rápido não diminuíram nem um pouco o frio que tomava conta do meu estômago.
— O que aconteceu? — a pergunta saiu em um tom mais cortante do que eu pretendia, mas o rapaz não pareceu se ofender.
— A senhora Porto pediu que eu viesse buscá-la o mais rápido possível.
Um chamado da governanta antes das sete horas da manhã nunca era um bom sinal.
Minhas suspeitas apenas se confirmaram quando, minutos depois, eu passei pela porta principal e Lopez, o mordomo, surgiu, guiando-me não para a sala da governanta, mas para o quarto da cozinheira. O ar quente, carregado com cheiro forte de gengibre e hortelã, me envolveu assim que entrei no cômodo.
— Milady — a senhora Porto se interpôs no meu caminho, impedindo-me de chegar mais perto da cama onde a cozinheira estava deitada com um pano úmido sobre sua testa. — Ela acordou com uma febre altíssima e mal conseguindo falar — ela informou antes que eu pudesse perguntar.
— Já chamaram o médico?
— Ele deve chegar em breve, milady. Não acho que seja escarlatina, talvez uma gripe, com sorte nada grave, mas ela não poderá trabalhar hoje. Talvez amanhã…
— Ela deve repousar até que melhore, não importa quantos dias leve. Suponho que as ajudantes da cozinha possam cuidar das refeições por algum tempo.
O olhar de dúvida que a governanta me lançou parecia o mesmo que uma mãe teria antes de dar notícias não tão boas para um filho.
— As refeições comuns da casa eu acredito que sim, mas a ceia do baile…
Balancei a cabeça no que eu esperava ser um aceno tranquilo. Nós só teríamos que arrumar uma cozinheira substituta de última hora. Nada muito complicado.
Nem um pouco.
— Milady… — A voz de Lopez fez com que eu me virasse, ainda que seu tom não fosse promissor. — Nós temos um problema com um dos pratos da ceia.
— Que tipo de problema?
— Ao que parece não conseguiram encontrar damascos para a Torta do Duque.
Meu queixo caiu de uma maneira nem um pouco elegante para qualquer pessoa, muito menos uma duquesa.
— Nenhum damasco? Na cidade inteira?
— Temo que não, milady, as criadas passaram quase uma hora procurando pelos mercados e não encontraram nenhum.
Isso era ridículo.
— Nós podemos fazer outra sobremesa e…
O olhar horrorizado nos rostos de Lopez e da governanta fez com que as palavras morressem em meus lábios. É claro que eles nem ao menos considerariam a ideia, a Torta do Duque — que recebeu esse nome em homenagem ao 5° Duque de Jade que a adorava — era uma tradição quase tão antiga quanto o próprio baile, sempre servida como a sobremesa principal.
—Tudo bem, eu vou pensar em uma maneira de resolver isso — declarei.
Logo depois que encontrar outra cozinheira, porque sem uma não fará diferença se eu conseguir uma tonelada de damascos, completei em pensamento.
— E tem mais uma coisa, milady — a senhora Porto hesitou.
Essa não…
— Um dos lacaios e três das empregadas também não estão se sentindo bem, são os mesmos sintomas, febre e dor na garganta.
Isso não era nada bom.
— Leve o médico até eles também — eu disse. — Mantenha todos em seus quartos e os demais longe pelo maior tempo possível.
Lopez fez menção de dizer algo, mas eu o interrompi, antecipando o que ele diria:
— Vou conseguir outro lacaio para servir a ceia, não se preocupe.
O olhar que eu recebi foi de um otimismo forçado e eu tive vontade de soltar uma risada insana. Lopez vinha entrevistando candidatos para a posição de lacaio há quase duas semanas, desde que um dos nossos se demitiu, e até o momento não tinha encontrado ninguém que o satisfizesse.
Eu só teria que fazer em poucas horas o que ele não conseguira em dias. Simples. Quais seria as chances de tropeçar em um lacaio desempregado?
Se bem que ele não precisava estar desempregado, apenas tinha que estar livre essa noite. Ou…
A ideia me ocorreu tão rápido que quase me fez abrir um sorriso que, sem dúvidas, não seria compreendido. Não era um plano perfeito, mas poderia funcionar.
— Lopez — virei-me para o mordomo —, diga para prepararem a carruagem o mais rápido possível.
Não esperei que ele assentisse ou se curvasse antes de andar o mais rápido possível até a cozinha. Alguns dos empregados estavam sentados à mesa, terminando o desjejum, e as ajudantes da cozinheira estavam de pé olhando ao redor como se se perguntassem o que deveriam fazer.
O som de cadeiras raspando no piso soou alto quando minha presença foi notada e uma fileira de corpos se curvou, murmurando cumprimentos aos quais eu respondi de forma generalizada antes de dizer:
— Eu vou encontrar uma cozinheira substituta, mas, enquanto isso, vocês comecem todos os preparativos que puderem, está bem?
— Milady, os damascos… — uma das ajudantes se adiantou.
— Eu sei, cuidarei disso também — contive a vontade de ranger os dentes.
Os acenos que recebi não pareciam muito convictos, contudo, deixei a cozinha antes que todos percebessem que eu acreditava menos em minhas próprias palavras do que eles, pelo menos no que dizia respeito à última parte.
Até mesmo a expressão do 5° Duque de Jade pareceu me julgar quando passei ao lado de seu quadro à caminho do segundo andar.
— Você não podia gostar de frutas nativas e mais fáceis de encontrar? — murmurei. — Como maçãs ou morangos… Até mesmo frutas vermelhas.
— Com quem você está falando, mamãe?
Do topo da escadaria, Valerius me encarava com a cabeça levemente inclinada, ainda vestindo sua camisa de dormir e com o cabelo mais parecendo um ninho de pássaros. Se os pássaros tivessem sido perseguidos por gatos raivosos, claro. Por mais clichê que a frase pudesse soar, parecia que, ainda ontem, ele não era mais que um bebê que passava a maior parte do tempo dormindo ou mamando.
Às vezes sonhando que mamava.
— Eu não estava falando com ninguém, apenas pensando alto — subi os degraus que nos separavam e dei-lhe um beijo no rosto. — Dormiu bem?
— Sim! Eu sonhei que tinha um dragão nas cavernas perto da praia!
— Um dragão?
— Sim! — Valerius quase tropeçou nos próprios pés enquanto assentia vigorosamente e caminhava ao meu lado. — Ele tinha uma pilha de ouro e joias e tentou me pegar quando eu fui atrás de uma taça de diamante!
Tudo bem, essa era uma evolução e tanto na terra dos sonhos.
— E você conseguiu pegá-la? A taça, eu quero dizer.
Valerius voltou a assentir, abrindo um sorriso de orelha a orelha e estufando o peito com orgulho antes de dizer:
— Eu troquei com ele por uma torta de maçã com creme.
A risada saiu de mim tão abruptamente que eu parei no meio do corredor, como se meu cérebro tivesse perdido a capacidade de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.
— Bem — respirei fundo, tentando me controlar —, pelo menos o seu dragão era mais fácil de agradar do que o seu ancestral.
— O quê?
— Nada — dei um beijo na testa de Valerius. — Mudando de assunto, o que você acha de fazer algo muito legal hoje?
Os olhos do meu filho brilharam como duas esmeraldas e ele saltitou, empolgado.
— Fazer o quê?
— Você vai ver.
***
Era o senso comum que ninguém poderia se considerar um adulto caso se escondesse na barra da saia da mãe a cada problema que enfrentava. Mas eu preferia acreditar que ninguém poderia se considerar inteligente se não usasse os recursos que podia para superar os obstáculos da vida.
Foi assim que, meia hora depois, eu me encontrei na porta da casa dos meus pais com os meus filhos a tiracolo. Para o crédito do mordomo, ele nem ao menos ergueu uma sobrancelha ante ao horário da minha visita, apenas me informou que o duque e a duquesa estavam tomando café-da-manhã.
Valerius não precisou de um convite para sair correndo pela casa gritando “vovô” e “vovó”. Um arauto melhor do que qualquer outro, eu tinha que admitir.
A surpresa ainda estava estampada no rosto de papai quando eu entrei na sala de jantar, o jornal jazia esquecido em suas mãos enquanto os olhos azuis corriam de mim para o meu filho que abraçava mamãe.
— O que aconteceu?
— Bom dia, pai, bom dia mãe — respondi com uma alegria mais incisiva do que real, dando um abraço rápido em mamãe que não tardou em pegar Aline dos meus braços.
— Bom dia, Ariel — papai devolveu no mesmo tom. — O que você está fazendo aqui às… — ele retirou o relógio do bolso e franziu o cenho. — …seis e cinquenta e dois da manhã?
— Eu preciso pegar Edna emprestada hoje.
A sala caiu em um silêncio absoluto, até mesmo as crianças ficaram quietas, ainda que por motivos diferentes daqueles dos avós, Valerius estava ocupado demais pegando um dos pequenos sanduíches no centro da mesa — culpa minha por tê-lo tirado de casa antes de um café da manhã apropriado — e Aline estava entretida demais com o colar que minha mãe usava.
Ignorando a neta, ela se virou para mim.
— Por que você precisa da nossa cozinheira?
— Ariel — meu pai falou ao mesmo tempo —, existem três coisas que um cavalheiro não empresta: suas roupas, seu cavalo e sua cozinheira.
— Isso significa que tudo bem se eu pedir um ou dois dos seus lacaios?
— O quê?
Com um suspiro, me sentei ao lado da cadeira que Valerius tinha ocupado e comecei a trocar alguns pedaços de bolo do seu prato por frutas enquanto explicava para os meus pais a misteriosa onda de doenças que tinha atingido minha casa.
— Ariel, você não precisa dos meus empregados, precisa é de um sacerdote — papai declarou quando terminei.
Eu e mamãe giramos os olhos ao mesmo tempo.
— Vou falar com Edna agora mesmo — ela declarou, levantando-se. — E informarei aos lacaios que devem ir até sua casa antes do baile.
— Obrigada, mãe.
— Espere um pouco — papai deixou seu jornal de lado de uma vez por todas. — Quem vai preparar o almoço e o jantar?
— Francamente, Augustus… — mamãe suspirou.
— Pai! — falei ao mesmo tempo.
Ao invés de responder, ele apenas nos encarou como se nós tivéssemos perdido o juízo.
— A vovó Adriana sempre diz que temos que ajudar os outros, vovô — Valerius se pronunciou, deixando seu sanduíche de lado por um minuto. — Mamãe precisa da sua ajuda agora, seria muito feio recusar.
Contive uma gargalhada enquanto o Duque de Alexandrita, famoso por sempre possuir uma resposta para tudo, encarava o neto com a boca aberta. Mamãe lhe deu alguns tapinhas no ombro, murmurando algo em seu ouvido antes de sair da sala, sorrindo.
— Você e Valerius podem almoçar e jantar em algum restaurante, pai — sugeri.
— Eu e…
— Mamãe comentou ontem que vai passar o dia com Isabella e se ofereceu para levar Aline com ela se eu precisasse, seria sem sentido pedir que ela fique com Valerius também. Especialmente quando temos você.
— Você tem uma babá para isso — papai apontou. — E um marido.
— Sim, mas Magnus só deve chegar no horário do almoço e com tantos empregados doentes, eu preciso da ajuda da babá para os preparativos do baile.
— E como você sabe que eu não estarei ocupado hoje? — ele apoiou os cotovelos sobre a mesa e o queixo em uma das mãos.
— Porque outro dia eu tive que ouvir Julius reclamando por duas horas sobre como você o deixou a cargo de todos os negócios da capital durante a temporada.
Meu pai não se esforçou para parecer ofendido ou arrependido, apenas deu de ombros ao declarar:
— Nós estamos ambos treinando.
— Ele para ser o próximo duque e você para ser o quê?
— Um aposentado.
Dessa vez eu não segurei o riso e os lábios do meu pai se curvaram em um sorriso próprio, como se ele estivesse muito satisfeito consigo mesmo.
— O que é “aposentado”? — Valerius perguntou.
— Vou deixar seu avô explicar. — Ergui-me. — Voctória está em casa?
— Ainda no quarto dela — meu pai respondeu. — Vai levá-la com você? Seria ótimo, pelo menos eu não teria que me preocupar com os problemas nos quais ela pode se envolver.
— Talvez você devesse passar a guarda dela para Julius — sugeri, a meio caminho da porta.
— E você acha que eu não tentei?! — papai bufou. — Sua mãe me impediu, disse que os pais é que devem se responsabilizar pelos filhos. Um absurdo!
Eu ainda ria comigo mesma quando cheguei à porta do quarto de Victória. Quando minha batida não teve resposta, girei a maçaneta e espiei dentro do cômodo. Minha irmã ainda estava dormindo, mesmo que sempre fosse uma das primeiras da família a se levantar.
— Victória!
Como ela nem ao menos se moveu, fui até a cama e sacudi seu ombro, chamando-a mais uma vez. Minha irmã acordou sobressaltada, seus olhos azuis pareciam ter dobrado de tamanho, o que — aliado aos fios de cabelo castanho-claro que despontavam em diferentes direções ao redor de sua cabeça — lhe conferia um aspecto… louco, na falta de uma palavra melhor.
— Ariel! Que, diabos, você está fazendo aqui?!
Achei melhor não repreendê-la pelo linguajar nada apropriado para uma jovem de dezenove anos, isso não melhoraria seu humor nem um pouco. E, verdade fosse dita, seria um tanto hipócrita da minha parte.
— Eu preciso da sua ajuda.
— Para quê? E a essa hora? — Victória resmungou. — Aliás, que horas são?
— Algo em torno das sete — balancei a mão em um gesto impaciente. — Vi, eu preciso saber se você conhece alguém que venda damascos. Não me interessa se é desse lado do rio ou do outro, se é um feirante ou um contrabandista.
Minha irmã piscou, encarando-me como se eu tivesse começado a falar em um dos idiomas do leste. Ou como se eu tivesse perdido a sanidade. Talvez ambos.
— Um contrabandista de damascos?
— Eu estou desesperada — dei de ombros.
— Eu… Eu nem sei por onde começar com essa loucura — Victória se sentou, passando as mãos pelo rosto. — Por que você acha que alguém contrabandearia damascos e por que eu conheceria essa pessoa?
— Não precisa ser um contrabandista — corrigi —, eu só não me importo se for. Quanto a outra pergunta, eu realmente preciso responder?
Victória soltou um suspiro típico de quem já falou a mesma coisa mil vezes e se vê obrigado a repetir pela milésima primeira.
— Eu só sou uma pessoa bem informada, não uma divindade onisciente e onipresente que conhece cada canto obscuro de Aurea.
— Isso ainda está sob discussão, mas, sem ofensas, eu tenho problemas maiores no momento do que o seu envolvimento em uma rede secreta de espionagem ou suas conexões sobrenaturais.
Minha irmã girou os olhos e cruzou os braços antes de dizer:
— Você não precisa de um feirante, tampouco de um contrabandista, é só mandar uma mensagem para Ian.
Dessa vez fui eu quem sentiu como se não tivesse compreendido o real sentido de suas palavras.
— Ian?
— Considerando como ele se tornou um entusiasta de produtos de Kêmia nos últimos anos, ele certamente tem um estoque de damascos, Ariel. Talvez não frescos, mas…
— Não importa — eu a interrompi. — Frescos, secos, murchos… desde que não estejam estragados eu aceito.
— Tenho certeza de que ele mandará alguns para você.
— E passará a próxima década se gabando sobre como salvou o meu baile — suspirei. — Não sei por que tudo tinha que dar errado justo no ano que Adriana não está aqui para ajudar com o planejamento.
— Talvez a ausência dela seja o motivo.
Peguei uma das almofadas caídas no chão e joguei-a em Victória que a pegou sem qualquer esforço. Em um movimento fluido, ela se levantou, bocejando, e encarou o relógio, apenas para soltar um xingamento que me fez perguntar com que tipo de companhia ela estava andando.
— Eu estou atrasada!
— Atrasada para quê? — Não pude deixar de perguntar.
Victória parou no meio do caminho até seu guarda-roupa apenas por tempo suficiente para me lançar um olhar enigmático.
— Acredite, você não quer saber.
Não. Eu não queria.
— Vejo você hoje à noite.
A pergunta saiu com um leve tom de dúvida, e minha irmã declarou, sem se virar:
— Se nenhum contrabandista marcar um encontro comigo, estarei lá.
A risada que eu soltei tinha parcelas iguais de diversão e medo, e foi seguida por uma breve prece para que Victória não se envolvesse em problemas demais até o fim de sua vida.
***
Horas mais tarde, eu lamentei não ter direcionado as preces para mim mesma.
— O que você quer dizer com “os músicos não poderão vir”?
Lopez, ele não vacilou, tampouco perdeu a compostura ou me lançou um olhar que fosse qualquer coisa além de cordial.
— Eles enviaram uma mensagem, milady, pedindo desculpas e dizendo que se encontram impossibilitados de vir.
— E eles disseram por quê?
— Não, milady, não apresentaram os motivos.
A maneira como seus lábios se curvaram minimamente para baixo era o equivalente a uma careta de qualquer outra pessoa. Se havia algo que o sempre eficiente Lopez desprezava nesse mundo eram pessoas que não apresentavam bons motivos para voltarem atrás em sua palavra. E por bom motivo, na concepção dele, eu me refiro a morte própria ou de um familiar em primeiro grau.
Meu olhar se desviou para o grande relógio no canto da sala, já eram quase cinco horas. Onde eu encontraria músicos disponíveis para tocar em um baile que começaria às oito?
— Eu tomei a liberdade de enviar alguns dos empregados até os músicos que tocaram no último baile do Visconde de Cristal, milady. E também do Marquês de Morganita, acredito que ambos eram competentes, pelos comentários que ouvi.
— Você fez bem.
Lopez inclinou de leve a cabeça e deixou a sala. Tão logo a porta se fechou atrás dele, eu afundei em uma das cadeiras, massageando de leve minhas têmporas. Pelo menos Edna tinha assumido o comando da cozinha com eficiência, a preparação dos aperitivos e dos pratos para a ceia ia de vento em polpa; o médico tinha examinado os doentes e garantira que não era uma doença grave, ainda assim, eles deviam repousar e ter o mínimo de contato possível com os outros.
E Ian enviara os damascos, junto a uma nota exagerada sobre como ele era o herói da família. Tirando o fato de que agora eu estava em débito com ele, tudo estava melhorando até um minuto atrás.
O barulho de uma carruagem na rua me fez levantar em um salto e correr até a janela a tempo de ver o veículo passando pela porta sem se deter.
Não era Magnus.
Ao longo das últimas horas eu tinha tentado não me preocupar demais com seu atraso, mas estava ficando cada vez mais difícil. Olhei para os dois lados da rua, esperando que a carruagem com o brasão dos Jadian surgisse, mas não adiantou de nada.
— Milady.
Encolhi-me por reflexo graças ao chamado às minhas costas. O que mais poderia ter dado errado? Assim que me virei, a empregada fez uma mesura rápida, mantendo as mãos diante do corpo e declarou:
— A senhora Porto precisa da sua opinião sobre as flores para o salão principal.
— Eu já estou indo.
A jovem empregada fez mais uma mesura e deixou o aposento, apressada, um modo de agir que se tornava cada vez mais comum entre todos ali. Lancei um último olhar pela janela, na esperança de ver a aparição súbita do meu marido, mas foi inútil.
A próxima hora passou tão rápido que tive que olhar duas vezes para o relógio quando Lopez apareceu, o mais aflito que eu já vira, para comunicar que ainda não tinha encontrado novos músicos. Pelo menos não um grupo com boas referências.
Contive a vontade de gritar ou começar a rir como uma lunática, nem um dos dois serviria para melhorar nossa situação. Lopez e a senhora Porto me encaravam como se esperassem que eu tivesse uma solução mágica, talvez um quarteto de cordas escondido sob minhas saias e um pianista no meu espartilho.
Eu estava prestes a dizer que talvez devêssemos contratar os músicos da taverna mais próxima, quando passos com uma cadência conhecida ressoaram no assoalho. Pela primeira vez desde que acordei, eu me senti verdadeiramente bem, toda a preocupação e cansaço que cresciam em mim deram lugar ao mais puro alívio.
Magnus parecia ter corrido todo o caminho até Aurea. Suas roupas estavam desalinhadas, o rosto corado pelo sol e fios de seu cabelo grudavam em sua testa coberta de suor. Tudo isso, aliado ao estado empoeirado de suas botas, denunciava que ele não viera na carruagem.
— Eu estava começando a achar que tinha acontecido algo a você — falei, aproximando-me dele.
Quando fiz menção de abraçá-lo, Magnus ergueu as mãos, detendo-me.
— Por mais que eu esteja com saudades, não creio que abraços ou beijos sejam uma boa ideia antes que eu possa ao menos lavar o rosto.
Ignorando-o, dei um beijo rápido em seus lábios. Os empregados continuaram a se mover ao nosso redor sem se perturbarem, eles tinham parado de se surpreender com demonstrações de afeto como esta, cerca de dois meses depois de termos nos casado. Talvez existisse alguma fofoca entre eles sobre o nosso comportamento, mas essa era a menor das minhas preocupações, em especial agora.
— Por que demorou tanto?
— Houve uma tempestade durante a madrugada — Magnus disse. — Algumas árvores caíram e fecharam a estrada nas montanhas, tive que deixar a carruagem para trás e seguir a cavalo.
— Céus, hoje é realmente um dia para desastres — suspirei.
A expressão de Magnus mudou para preocupação, mas, ao invés de responder de imediato, eu pedi que providenciassem um lanche para nós e o levei comigo para o andar de cima. Quando estávamos acomodados na saleta, eu lhe contei sobre tudo o que tinha acontecido desde o momento que recebi a notícia de que a cozinheira estava doente.
Magnus assumiu um ar de seriedade que me fez lembrar de quando nos conhecemos, ele mal pareceu notar que uma das empregadas trouxe uma bandeja com chá e alguns petiscos. A única mostra de reação foi o cenho franzido quando mencionei a ausência dos músicos.
— Acho que teremos que cancelar o baile — conclui.
Ao invés de soltar alguma maldição imprópria para os ouvidos de mulheres inocentes ou de se levantar para andar de um lado para o outro enquanto passava as mãos nos cabelos, Magnus apenas tomou um gole do chá até então esquecido e, com uma calma admirável, pousou a xícara sobre a mesa.
— Pode terminar o que precisa aqui e se arrumar, eu vou resolver isso.
Eu tinha certeza de que minha boca entreaberta e as sobrancelhas arqueadas não formavam uma expressão muito bela, mas em cinco anos de convivência diária, Magnus, se dúvidas, já me vira com uma cara pior.
— Sem querer ofendê-lo ou duvidar de sua capacidade, meu amor, mas como você pretende conseguir um grupo de músicos profissionais em menos de duas horas?
Magnus se levantou e veio até mim, selando nossos lábios em um beijo deliberadamente lento antes de dizer:
— Eu tenho os meus meios, não se preocupe.
Não tive a chance de replicar antes que ele deixasse a sala a passos largos e confiantes. Talvez Victória não fosse a única com conexões suspeitas pela cidade.
***
Eu não deveria ter me surpreendido quando, faltando pouco menos de uma hora para o baile, a porta do meu quarto de vestir foi aberta e Magnus entrou. Cada linha do seu rosto estava marcada pelo cansaço, mas o brilho vitorioso em seus olhos e o sorriso mais do que satisfeito fez o peso que comprimia o meu peito desaparecer.
— Você conseguiu. — Não era bem uma pergunta, mas Magnus assentiu de qualquer forma.
O brinco que eu colocava em minha orelha escapou dos meus dedos e caiu em algum lugar aos meus pés quando eu me levantei em um salto e corri até Magnus, quase tropeçando na barra do meu vestido de baile.
— Como… Onde…— Deixei as perguntas de lado e dei-lhe um beijo em cada bochecha, então um nos lábios, antes de abraçá-lo com força. — Você é o meu herói.
Magnus arqueou uma sobrancelha, um gesto que misturava elegância e uma ponta de ironia, algo que, apesar das muitas tentativas que só serviam para divertir Valerius, eu nunca conseguira imitar.
Envolvendo minha cintura com os braços, ele declarou:
— Se eu soubesse que só precisava conseguir cinco músicos decentes para ganhar o título de herói, nem teria me preocupado em tentar te salvar quando foi sequestrada.
— Você ganhou uma ótima história para contar para os nossos filhos, deveria ser o bastante.
— Por alguns segundos achei que você diria que eu ganhei o seu coração.
— Desculpe-me meu caro e ganancioso esposo, mas é impossível ganhar algo que já era seu há muito tempo.
A ternura nos olhos de Magnus era tão inegável quanto o carinho em seu toque quando ele me puxou para si.
— Eu também te amo — ele murmurou antes de unir nossos lábios mais uma vez.
O beijo começou lento, Magnus parecia determinado a saborear cada canto da minha boca como se nunca tivesse feito isso antes, mas os dias afastados falaram mais alto e o desejo sobrepujou seu autocontrole. Suas mãos percorreram o meu corpo, ou tentaram, já que as camadas de tecido do vestido e o espartilho tornavam quase impossível sentir o seu toque.
Ele pareceu perceber o mesmo, porque seus dedos foram até os ganchos que mantinham meu corpete fechado, preparando-se para soltá-los. Por mais que eu quisesse deixar que ele prosseguisse, obriguei-me a me afastar.
— O baile é daqui a pouco e você ainda precisa se aprontar — declarei. — E eu não tenho mais uma hora para me arrumar de novo.
Um ruído que pareceu demais com um rosnado escapou de Magnus, mas ele assentiu, feliz como se tivesse acabado de concordar em ter todos os seus dentes arrancados. Entrelaçando as mãos às costas, ele respirou fundo e declarou:
— Tem algo que você precisa saber sobre os músicos, eles não são um grupo muito convencional.
Toda a alegria que eu vinha sentindo desapareceu e eu me preparei para ouvir a má notícia da vez. É claro que haveria algo de errado com os músicos, é óbvio que…
— Dois dos membros são mulheres — Magnus continuou.
Encarei meu marido para ter certeza de que tinha ouvido direito. Isso explicava porque os músicos estavam disponíveis para se apresentar em um tempo tão curto, algumas tradições eram difíceis de serem superadas, e a antipatia à mulheres que tocavam para o público era uma delas. Sem dúvidas o grupo se apresentava em reuniões menores, talvez essa fosse a primeira vez que eles estariam em uma reunião da nobreza, era…
— Uma ótima oportunidade — Magnus verbalizou meus pensamentos. — Eles são muito talentosos, posso atestar. E, se o modo como reagiram quando apresentei a proposta é metade do reflexo da dedicação e paixão deles pela música, ouso dizer que farão uma apresentação digna de ser lembrada.
Sorrindo, apoiei as mãos nos ombros do meu marido, entrelaçando os dedos em sua nuca.
— Obrigada.
— Pelo quê?
Por conseguir os músicos que salvariam o baile? Por dar a alguém uma oportunidade que poucos dariam? Por não ser como a maioria dos outros lordes do país? Por ter entrado na minha vida e ter me dado a chance de mantê-lo nela?
— Por ser você.
Magnus sorriu e girou os olhos, dispensando o elogio como se não fosse nada.
— Agora, de verdade é melhor você se apressar — comecei a empurrá-lo para o quarto do duque.
Quando chegamos à porta, Magnus segurou no batente e se virou para mim.
— Alguma chance de adiantarmos a dança de encerramento? Talvez para meia-noite? Onze horas?
— A tradição é às três e você sabe — empurrei-o um pouco mais até que ele recuasse para o interior do quarto e eu estivesse no limiar da porta. — São sete horas de pura diversão, conversas imperdíveis e apreciação à culinária — completei, sem conter uma ponta de ironia.
— Quem inventou isso?
— Provavelmente o mesmo duque apaixonado por tortas de damasco.
— Maldito seja, é tempo demais — Magnus murmurou.
Uma voz em minha cabeça, sem dúvidas o meu lado mais tenro e empático, disse que eu deveria ficar quieta, que eu não deveria executar a ideia que se formou em minha mente, fazer aquilo com meu marido seria quase cruel. Em especial depois do trabalho que ele tivera para salvar a noite.
Ignorando prontamente aquela parte de mim, inclinei-me para Magnus e beijei-lhe o pescoço, antes de sussurrar em seu ouvido:
— Você sabe o que dizem, paciência sempre é bem recompensada… Se você não estiver cansado demais ao fim da jornada, claro.
Sem dar a ele a chance de responder, eu fechei a porta do quarto, tendo apenas um breve vislumbre do calor que tomava conta dos olhos de Magnus.
E da promessa contida neles.
Um arrepio percorreu o meu corpo. Magnus não seria o único a enfrentar dificuldades, sete horas era tempo demais.
Mas depois…
Bem, nós tínhamos uma vida inteira pela frente.

