20 de abril de 1813, Província de Nióbe
Toda calmaria sempre antecede uma tempestade.
Essa era uma das frases feitas que papai reservava para quando eu ou meus irmãos aprontávamos uma peripécia particularmente grande. O que, para ser honesta, acontecia mais vezes do que era saudável.
— Magnus…
Meu marido não ergueu a cabeça dos contratos que analisava, mas soltou um murmúrio que deixava claro que estava me ouvindo.
— Tudo está quieto demais — continuei.
— E qual é problema?
— São quase quatro horas.
Aquilo foi o suficiente para fazer Magnus largar os contratos. Seus olhos azuis foram até o antigo relógio de pêndulo que ficava no canto do escritório e então para a janela ao lado da minha escrivaninha, como se precisasse da luz forte do sol de uma tarde de primavera para confirmar que a hora estava correta.
— Pode não querer dizer nada — ele declarou.
— Eu preciso lembrá-lo do que aconteceu da última vez que Valerius e Aline ficaram quietos por mais de uma hora, caríssimo esposo?
Quase doze anos de matrimônio pareciam ter deixado Magnus imune ao meu sarcasmo e garantido que o seu olhar fosse mais que suficiente para me comunicar que sim, ele se lembrava bem do episódio. Apesar de todos os esforços de Alice, a pintura do 3° Duque de Jade ainda exibia uma leve diferença de coloração no local onde uma nova demão de tinta fora usada para cobrir o bigode e as sardas que meus filhos acharam que o tornaria mais simpático.
— Sejamos honestos, não foi tão ruim assim. — Um sorriso brotou nos cantos dos lábios de Magnus — Os dois estavam certos, o quadro ficou melhor do jeito deles.
Girei os olhos e me levantei, indo até onde ele estava. Se é que fosse possível, a última década o tinha deixado ainda mais bonito, com o acréscimo de uma leveza que talvez fosse a maior responsável pela mudança.
— O que foi? — Magnus franziu de leve as sobrancelhas.
Meus dedos foram até a sua testa por vontade própria, desmanchando o vinco que se formara ali. Deslizá-los até o seu cabelo e pela lateral de seu rosto foi tão natural quanto me inclinar para beijá-lo.
Não levou um segundo para que as mãos de Magnus estivessem em minha cintura e ele me puxasse para seu colo. Sua boca deixou a minha apenas para mordiscar o lóbulo da minha orelha e o meu pescoço antes de voltar novamente para os meus lábios. Era de se esperar que, àquela altura, eu já estivesse acostumada as sensações que ele despertava em mim, mas eu ainda esperava por cada uma como uma criança ansiosa por um presente.
Eu estava prestes a soltar o nó de sua gravata quando uma batida na porta me deteve. Ou melhor, três batidas rápidas e leves como o bater de asas de um beija-flor. Magnus balançou a cabeça de leve, soltando um suspiro.
— Sim, eu sei — sussurrei em seu ouvido antes de me levantar, virando-me para porta e dizendo um pouco mais alto: — Entre!
A palavra mal tinha deixado os meus lábios quando Aline entrou no escritório. Meus olhos foram atraídos imediatamente para as manchas em seu vestido lilás, a ausência de folhas e grama deixava claro que ela tinha tentado limpá-lo antes de entrar no castelo. Tentado sendo a palavra chave.
Contudo, apesar das manchas no vestido, do rosto ainda vermelho e dos fios ruivos que escapavam de suas duas tranças, ela tinha um ar grave ao declarar:
— Nós precisamos conversar.
Olhei de relance para Magnus e ele contraiu os lábios, fosse para tentar conter um sorriso ou preparando-se para o que viria a seguir.
— Parece um assunto muito sério — ele declarou, por fim.
— E é — Aline assentiu, cruzando as mãos diante do corpo.
Magnus se levantou e puxou uma cadeira no lado oposto da escrivaninha para que ela se sentasse. Ao invés de afundar no assento com um sorriso travesso como sempre fazia, Aline se sentou com as costas tão retas que teria deixado mamãe e Isabella orgulhosas. Sua pose vacilou apenas por alguns instantes quando os olhos tão azuis quanto os Magnus pousaram em mim.
— Seu pescoço está vermelho mamãe. Um mosquito te picou?
Um som meio engasgado escapou do maior mosquito da história da humanidade enquanto ele puxava uma cadeira para que eu me sentasse.
— Sim, Aline, um mosquito muito malvado.
Magnus se virou para mim com ambas as sobrancelhas arqueadas e uma expressão quase ofendida, por sorte, Aline estava mais ocupada olhando ao redor em busca do inseto inexistente.
— Você o matou? Eu sei que não devemos matar insetos sem motivo, mas mosquitos são exceções, certo?
— Com certeza — concordei de imediato.
— O que você queria falar conosco, Aline? — Magnus perguntou ao mesmo tempo.
A frase serviu como um sinal para que nossa filha voltasse a assumir a postura de séria, com um queixo um pouco erguido e os ombros para trás. Se eu não estivesse tão concentrada em não rir, poderia ter me preparado um pouco melhor para a declaração que se seguiu.
— Eu preciso de uma irmã.
Preciso. Não “quero” ou “desejo”, mas preciso.
Era bom que eu já estivesse sentada, caso contrário, provavelmente teria caído no momento que meu cérebro pareceu parar de funcionar. Ao contrário de mim, Magnus não pareceu minimamente chocado, seu semblante era tranquilo, com apenas uma ponta de curiosidade, quando ele questionou:
— Precisa?
— Valerius não quer brincar comigo.
Magnus assentiu, como se o que Aline disse fizesse todo o sentido do mundo. Um motivo muito compreensível e válido, claro. Sem dúvidas eu era a única que continuava embasbacada.
— Mas você ainda tem Derek — meu marido apontou.
Aline soltou um suspiro e balançou a cabeça como se fosse obrigada a concordar.
— Derek só tem três anos e brinca como pode, eu admito. Porém, ele tem um defeito.
— E que defeito seria esse? — perguntei, mesmo já tendo uma boa ideia de qual era resposta.
— Ele é um menino. — Aline pronunciou a palavra como se ela fosse um verme nojento. — Ele vai ficar igualzinho ao Valerius: chato.
— Seu pai é um menino.
O comentário me rendeu uma sobrancelha negra arqueada e uma expressão quase ofendida da parte do meu marido e uma negativa veemente vinda da minha filha.
— Mas papai não conta, ele já é grande, ele tem que passar a maior parte do dia lendo uma montanha de papéis ou tendo reuniões chatas e não brincando.
— Por um momento, minha vida parece um tanto deprimente — Magnus murmurou.
— Valerius poderia brincar comigo se ele quisesse, mas ele se acha velho demais para as brincadeiras que eu gosto, só porque vai para o colégio interno em setembro. E ele não entende a importância de metade delas, de qualquer forma. Por isso eu preciso de uma irmã, uma menina vai me entender.
Troquei um olhar com Magnus que parecia fazer tanto esforço quanto eu para conter uma risada que, julgando a seriedade de Aline, seria uma ofensa grave. Aquele era um péssimo momento para lhe dizer que uma irmã poderia não atender todas as suas expectativas.
— Eu sei que demora um tempo para os bebês nascerem — ela continuou, tomando nosso silêncio como uma oportunidade para seguir seu raciocínio —, Derek levou quase um ano para nascer…
— Um pouquinho menos que nove meses, na verdade — corrigi.
— Certo — Aline balançou a mão no ar como se esse detalhe não fosse muito importante. — Mas não pode ser tão difícil assim.
— O que não pode ser tão difícil?
— Ter um filho, oras.
Senti minha boca se abria enquanto meu queixo pendia frouxo, mas eu não tinha a força de vontade necessária para fechá-la. Ao meu lado, Magnus engasgou e teve um acesso de tosse tão violento que seu joelho bateu no tampo da escrivaninha, quase derrubando o tinteiro ainda aberto.
— De onde você tirou uma ideia dessas, Aline? — perguntei, segurando a mão de Magnus com força.
— Se fosse difícil, vovó Vanessa e vovô Augustus não teriam tido tantos.
Justo quando eu achava que não poderia me surpreender mais…
Por puro reflexo me virei para Magnus que parecia não saber qual reação seria a mais apropriada. Rir? Ficar parado em choque? Beliscar a si mesmo para ver se essa situação não passava de um sonho?
Céus! Eu teria que escrever para os meus pais para contar isso. Não sem antes pedir que mamãe providenciasse um colchão para evitar que papai se machucasse quando caísse da cadeira de tanto rir.
— Mamãe, papai? Vocês estão me ouvindo? — Aline cruzou os braços, franzindo o cenho até que a miniatura do vinco que surgia entre as sobrancelhas de Magnus aparecesse entre as dela.
— Sim, nós estamos — Magnus respondeu, passando a mão livre pelo rosto, já que eu ainda me agarrava a outra como se meu autocontrole dependesse disso. — Eu odeio lhe dar essa notícia, Aline, mas mesmo que sua mãe e eu tivéssemos outro filho, não teria como garantir que seria uma menina.
— Ah, mas eu sei como resolver esse problema. — Aline abriu um sorriso tão luminoso que me fez apertar a mão de Magnus ainda mais. — Eu vou incluir nas minhas orações um pedido para ter uma irmã e farei isso todas as noites, sem pular uma. E se eu ver uma estrela cadente vou fazer esse pedido também, apenas para garantir.
Eu já tinha perdido a conta de quantas vezes me perguntara de onde meus filhos tiravam essas ideias. Sem dúvidas existia uma fonte de criatividade acessível apenas para crianças. E, ao que tudo indicava, Aline quase tinha se afogado nela.
— O pior é que eu não duvido que esse plano funcione — murmurei.
Se Magnus me ouviu, fez questão de me ignorar, mantendo seu olhar fixo em nossa filha.
— Só tem um problema.
Toda a animação de Aline pareceu se esvair em um único sopro, dando lugar a desconfiança.
— Qual?
— Você vai ter, no mínimo oito anos quando sua irmã nascer.
Magnus mal tinha terminado a frase e Aline já balançava a cabeça tão rápido que seu pescoço parecia prestes a se partir.
— Eu posso esperar dois ou três anos até que ela aprenda a brincar direito!
— Na verdade, eu estava pensando em quem brincaria com ela quando você crescer.
A boca de Aline se abriu formando um “o” perfeito enquanto sua mente não conseguia inventar uma resposta rápido o bastante.
— Suponho que vocês possam ter outra filha depois dela?
Não pude evitar um sorriso enquanto perguntava:
— E depois dela? Nós devemos continuar tendo filhos para sempre? Até você ter cinquenta irmãos?
— Cinquenta?! — A postura até então perfeita de Aline vacilou quando se jogou contra o encosto da cadeira. — Não, não, não!
Magnus deu alguns tapinhas leves em meu joelho ao mesmo tempo que pressionava os lábios, lutando para não deixar uma risada escapar. A perspectiva exagerada de cinquenta irmãos era o bastante para dissuadir até mesmo Aline da ideia de…
— Vocês poderiam ter gêmeas! — minha filha saltou da cadeira como se tivesse molas em seu assento. — Assim elas cresceriam juntas e o problema estaria resolvido!
— Céus! — Magnus soltou em meio a gargalhada impossível de conter. O que, claro, não me deixou nenhuma outra opção a não ser imitá-lo.
Depois de alguns segundos, enquanto eu ainda secava os cantos dos meus olhos, ele apoiou os cotovelos na escrivaninha e entrelaçou os dedos na altura do queixo, voltando a encarar Aline.
— Eu não contaria com isso se fosse você, Aline, depende muito da sorte.
Aline soltou um suspiro pesado tão dramático que me fez pensar seriamente em mantê-la longe de Jasmine dali em diante.
— Suponho que eu não tenha outra opção…
Magnus assentiu, antes de completar:
— Terá de fazer as pazes com seu irmão.
— Terei de partir — Aline disse ao mesmo tempo.
— Sim… O quê? — Meu marido inclinou a cabeça, como se só então tivesse entendido o que ela dissera.
— A situação está insustável, papai.
— Insustentável — corrigi automaticamente.
Minha filha anuiu, lançando-me um sorriso de agradecimento antes de continuar:
— Mas tudo bem, eu tenho um plano.
Era impressionante como uma única frase era capaz de causar temor e curiosidade na mesma medida. Alheia ao meu conflito interno, que sem dúvidas era o mesmo de Magnus, Aline retirou do bolso um papel que eu conhecia bem.
Com cuidado, ela desdobrou-o sobre a escrivaninha, revelando um mapa de Adamantys. Tinha sido um presente de Magnus, depois que Aline arrastara seu melhor atlas até o quarto das crianças vezes demais para planejar uma série de viagens que faria no futuro. As localizações das casas de nossos familiares tinham sido marcadas com precisão sob a orientação de Magnus e era para elas que Aline apontava agora.
— Primeiro eu vou para casa do vovô e da vovó, fico um mês lá, depois fico mais um mês com o tio Julius, de lá vou para a casa da tia Tatiana onde posso ficar mais um mês. — Aline traçou o caminho com o dedo. — Só isso vão dar três meses. Então eu vou para Aurea e passo um mês na casa do tio Ian e mais um com o tio Thomas, e faço a mesma coisa com o tio Vladmir, a tia Victória, a tia Alice e a tia Katrina. Vão dar… — ela parou alguns instantes para contar nos dedos antes de declarar: — Nove meses! Depois eu vou para a casa da tia Lizzie e da tia Isabella, se eu passar um mês em cada uma, serão onze meses ao todo. Somando os dias de viagem entre uma casa e outra deve dar quase um ano no fim das contas, deve ser tempo o bastante.
— Para quê? — perguntei.
— Para Valerius deixar de ser um boboca.
— Aline! — Magnus e eu dissemos em uníssono.
— Eu não sou um boboca, você que é!
Nós nos viramos ao mesmo tempo para a porta onde o próprio Valerius tinha surgido, os braços cruzados sobre o peito e os olhos verdes faiscando na direção da irmã. A semelhança entre ele e Magnus era desconcertante e parecia aumentar a cada dia que se passava.
— Valerius — Magnus arqueou uma sobrancelha e nosso filho descruzou os braços, enfiando as mãos nos bolsos, trocando o peso de um pé para o outro.
Contudo, antes que ele pudesse proferir um pedido de desculpas pela sua fala, Aline lhe deu as costas e nos encarou.
— Papai, eu vou arrumar as minhas malas e ficarei agradecida se puder pedir que preparem a carruagem.
Sem dar a qualquer um de nós a chance de responder, ela girou nos calcanhares e deixou o escritório com passo decididos.
— Para onde ela acha que vai? — Valerius indicou a porta com o polegar.
— Para casa dos seus avós, então para a casa de cada membro da família até ficar quase um ano fora — respondi.
— De verdade? — O sorriso de Valerius seria capaz de iluminar todo o castelo durante a noite inteira. — Porque eu acho que vocês deveriam deixar que ela fosse, vai ser muito bom para ela e…
— Desculpe te desapontar, rapazinho, mas sua irmã não vai a lugar algum — Magnus o interrompeu.
Valerius se virou para mim, esperando que eu dissesse o contrário e, sem dúvidas, mais do que pronto para ajudar Aline a fazer as malas ou o cocheiro a atrelar os cavalos na carruagem.
Apenas neguei com a cabeça e seus ombros afundaram como se tivesse recebido uma notícia terrível.
— Talvez eu deva escrever para Clarissa e pedir que ela deixe Marcellus e Nicole passarem algum tempo conosco para que Aline tenha companhia — falei e Valerius deu de ombros. — E as gêmeas, claro.
— Mãe! — ele praticamente correu até o meu lado. — O que eu fiz de errado para merecer um castigo desses?
— Não é um castigo, é uma solução.
Dessa vez foi para Magnus que Valerius olhou, mas ele apenas assentiu, como se achasse aquela uma ótima ideia.
— Se Helena e a pequena Ariel vierem para cá, eu vou embora!
— E vai perder a chance de mostrar para Helena como você e Apolo estão saltando tão bem juntos?
A menção ao cavalo e ao circuito de saltos que Magnus tinha mandado construir anos atrás foi mais que o suficiente para fazer Valerius mudar de opinião.
— Mãe, eu acho que você deveria escrever para tia Clarissa agora mesmo, assim a carta pode ser enviada no primeiro malote da manhã. — Dando um beijo rápido no rosto, ele correu até a porta, gritando: — Vou contar para Aline!
— Bem, acho que a briga está no passado — declarei.
— Até a hora do jantar, pelo menos, então eles podem discutir sobre quem ficará com o último pedaço de torta. — Magnus suspirou, se levantando e esticando os braços acima da cabeça. — Você realmente vai escrever para Clarissa?
Minha atenção, que por alguns instantes ficara presa na forma como seus músculos se flexionavam sob sua camisa, voltou para sua pergunta.
— Agora eu não tenho realmente uma opção, tenho? — Fui até ele, colocando meus braços ao redor de seu pescoço.
— Nós podemos usar a rota de fuga que Aline montou.
Lancei um breve olhar para o mapa ainda estendido sobre a escrivaninha. Céus, era uma rota de fuga e tanto.
— É bom saber que, se ela sumir um dia, nós saberemos exatamente onde procurar.
— É bom saber que ela tem tantos lugares para onde ir se precisar.
Encarei os olhos de Magnus, o padrão de diferentes tons de azul que eu memorizara ao longo desses anos e sem o qual meus dias jamais seriam os mesmos. Eles eram calorosos, nem por um momento pareciam pertencer ao homem que fora chamado de Duque de Gelo por tanto tempo.
— Sim, é bom saber disso também — concordei. — Mas, modéstia à parte, é melhor ainda ver que nós fizemos três ótimos trabalhos.
Magnus sorriu, depositando um beijo no canto dos meus lábios e aproveitando a chance para murmurar:
— Talvez devêssemos pensar em fazer mais um.
— Nem pense nisso! — retruquei de imediato. — Nem em um milhão de anos, Magnus!
Os lábios do meu marido roçaram nos meus, tão suaves quanto as palavras que escaparam deles:
— Eu tenho todo o tempo do mundo para te convencer, Ariel.
Minha resposta foi sufocada por um beijo mais profundo que os anteriores, do tipo que fazia arrepios e ondas de calor percorrem o meu corpo ao mesmo tempo e os pensamentos coerentes fugirem da minha cabeça.
Não eram apenas as discussões de Valerius e Aline que acabavam rapidamente.

